segunda-feira, 14 de março de 2011

nunca olhar para os velhos

“(a propósito da doença do barão de Tolly) Mathilde não se preocupou com isso. Era coisa decidida, nela, nunca olhar para os velhos e para todos os seres reconhecidos por dizerem coisas tristes.”
O Vermelho e o Negro, Stendhal

A deambular pelo luxo dos salões, envolta em cedas e rendas, Mathilde tem a esperança de escapar ao envelhecimento. É um tema de vida que lhe causa horror. A doença também. O barão de Tolly, por ser velho e doente, não espere por uma visita sua.
Ser velho ou doente, condição natural para quem não nega a perenidade da vida, significa para Mathilde ficar à mercê do desamparo e da dependência.
As pessoas tristes relembram-lhe que tem emoções. Também as rejeita por as julgar fracas. 

O que a mais rica herdeira do bairro não compreende, é que, não são os velhos que ela despreza, mas sim a sua própria condição humana, de um dia ser fraca, necessitar dos outros e sentir o sofrimento. O seu ego grandioso não o permite.
Mathilde é a personagem narcísica do romance.

2 comentários:

Ana Maria disse...

O texto lembra-me os diálogos entre Manoel e Judite no filme "Viagem ao principio do Mundo", do Manoel de Oliveira. É um diálogo muito intenso sobre o envelhecer, retratando em paralelo como os jovens olham para os menos jovens. Manoel, um realizador de idade avançada, interpretado por Mastroianni, fala do que é sentir-se velho, perante a "leveza" de Judite, uma jovem actriz. Eles próprios simbolizam o velho e o novo. O velho, dotado de grande introspecção e a seriedade com que encara o mundo e o novo, innocente e inconsequente.

cristina simões disse...

Deve ser interessante.
Escolhi contudo, este pequeno texto, porque ele retrata uma dimensão presente em personagens narcísicas: a rejeição da fraqueza (doença, velhice, expor emoções….) nos outros, mas sobretudo em si próprio.